1o de julho ! 89 anos da minha RAINHA !

Meu orgulho
Meu Norte
Meu colo
Meu dengo
Minha mestre
Minha incentivadora
Minha mãe !!!
Mulher
Profissional
Grande Irmã
Tia
Avó
Bisavó e AMIGA !
Te amo mãe ! ❤️
Feliz passagem de ano ✨✨✨✨

Obrigada por existir e continuar transmitindo paz, lucidez, sabedoria e muita presença na vida de todos nós !

Relembro aqui um pouco da história dessa mulher a pedido do CAU , há um ano e meio atrás, que instituiu o prêmio anual Zélia Maia Nobre para o melhor trabalho de conclusão do curso de Arquitetura.

“Zélia Pessoa de Melo , 6a filha de Apolonio Honório e Adalgisa Pessoa de Melo, nasceu em 1o de julho de 1929 aos sete meses de parto normal no Engenho Pirilampo em Nazaré da Mata, Pernambuco.

Chegou Zelinha ! A que seria por intuição de sua mãe Adalgisa , muito especial ao longo da sua vida.

Ao nascer disse-lhe para quem assistiu ao parto : “serás uma lutadora, vitoriosa e muito ” apressadinha” viu ?”

Apressada ! Ressaltou minha vó prevendo seu dinamismo e a vontade de conhecer o mundo logo logo.

E essa característica inquieta ( confirmada pelos 9 irmãos que, aos poucos a tinham como uma líder e grande irmã ) a fez hiper ativa, olhar aguçado e atento a tudo de novo , a tudo que também que a incomodava. Morar num Engenho e estudar como muitos faziam nessa época no interior do Brasil, principalmente no universo femenino, era quase que um imperativo, ainda mais no Nordeste.

Em sua primeira visita à Recife, perto do Natal e ainda menina, ficou encantada pela metrópole do Norte com suas luzes, carros, prédios , arborização, pontes , casarios antigos holandeses, muita gente pelas ruas, bondes, ônibus elétricos , rio Capibaribe , museus etc. E em seu coração e mente decretou : “É aqui sque erá meu lugar. É aqui que vou voar …
Ativa, líder ,altruísta , gregária e obstinada, colocou esse sonho para moer. E o Engenho Pirilampo já sabia que se despederia em breve dessa filha ímpar que tanto alegrava e movimentava essa paisagem bucólica e de paz …Era só uma questão de tempo. As brincadeiras com os irmãos num ambiente de muita paz e natureza, faziam-os felizes mesmo sem energia elétrica .

Um dia, todos os 10 irmãos ,incluindo os mais pequenos, tiveram que ficar escondidos vendo pelas frestas de uma porta à luz de vela , o pai Apolônio recebendo o bando de Lampião em sua mesa para 16 pessoas. Essa meia luz , e a diplomacia que seu pai os recebeu marcaram todos para sempre . Os mais velhos, sabiam de ante mão que eram perigosos, mas que esse mesmo bando negociava também com homens de bem ,seja por uma pernoite ou por um bom “rango”.

Minha vó preparou tudo como deveria , pois, um dia antes, o portador do bando mandou avisar (como de costume ) onde seria a próxima parada. E os dez , ali atrás da porta , uns sabendo do que se tratava , outros chupando dedo participando de uma cena histórica, mas em suas cabecinhas apenas mais um visitante ilustre, e que criança não deveria participar, e sim estar dormindo aquelas horas, como de costume.

Essas e outras passagens foram formando a personalidade de Zélia. Ser diplomata , era um termo e uma pratica que a própria vida lhe ensinou.

Cresceu forte e determinada. Recife era seu objetivo dia e noite . Ia dormir sonhando pelas ruas e calçadas , e ao mesmo tempo , como uma ” doutora universitária ” … Passaram-se os tempos. Seu pai adoeceu , e sua mãe precisava sustentar toda família. Dez filhos para criar ,além de 2 irmãs da mesma geração que sua bisavó ( já com 15 filhos ) não tinha condições de criá-las. Mais Duas irmãs: Adriana e Olivia que mais tarde casariam com oficiais do exército americano, mudando-se para Califórnia/USA definitivamente. Mas tudo era felicidade e motivo para impulsionar a vida e ser exemplo para os demais.E os 12 cresceram unidissimos no famoso termo : Um por todos e todos por um !

Aos 23 anos ingressou no seu grande sonho : Universidade de Belas Artes de Recife ! Arquiteta . Era o que ela queria ser.

Recife lhe traria grandes oportunidades e amigos. Ingressou numa classe onde ela era a única mulher de uma turma de 60 homens.

Muito querida e respeitada, virou uma espécie de irmã e amiga confidencial de todos. Era uma turma que formou grandes profissionais como Valdeci Pinto, Reginaldo Esteves, Borsoi , Edson Lima e tantos outros mais novos que ela acompanhou de perto a exemplo de Janete Costa , como também, um pouco mais à frente, um tal de Oscar Niemeyer , Lucio Costa ,Sérgio Bernardes, Lina Bobardi e muitos que fizeram uma escola vanguarda no Brasil do pós guerra, e que crescia numa velocidade comparada ao 1o foguete (Apolo 11) lançado á lua pela Nasa mais adiante.

Mas nesse período de universidade, Zélia ainda se ocupava de ser líder de movimentos estudantis. Era muito querida de todos e ainda para se livrar de matérias de cálculos ( o bicho papão dessa área ) conheceu um dos alunos mais brilhantes de engenharia em Recife , Vinicius Furtado Maia Nobre.

Esse estudante, quase um formando, bonito e galã como diziam na época, era também atleta e recordista de medalhas pelo basquete pernambucano. Apaixonou-se de cara por essa moça de arquitetura tupetuda que ia para Escola de Engenharia para que o mesmo tirasse suas dúvidas.

Não deu outra : tornaram-se namorados a despeito do zelo,carinho e ciúme dos 60 colegas de classe de Zélia. Entretanto,ela,como uma boa diplomática, o apresentou para sua turma como sendo ele o expert em cálculos e assim, ninguém deixaria de passar de ano, pois ele ensinaria de graça . Pronto: Foi a senha ! Dai por diante a irmandade foi uma só , e a maioria deles, foi padrinho de casamento de ambos, em 1955 na Igreja da Soledade em Recife, um ano após sua formatura.

Já casados, vieram morar em Maceió. Tornaram- se profissionais brilhantes , cada um na sua área . Ela projetando residências, prédios públicos, restaurante universitário, loteamentos, decorando, e também uma apaixonada pelo urbanismo. Ficou amiga de Burle Marx que, de tanto admirar o jardim da residência Maia Nobre 257 no bairro do farol,ambos colheram frutos e trocas como bons profissionais visionários.

Outro fato relevante da personalidade gregária dela, foi o de acolher junto ao meu pai, muitos jovens estudantes perseguidos pelo Governo Militar que assustou várias gerações! Histórias incríveis que não só presenciamos como foram contadas por eles mais adiante para entendermos os códigos de silêncio em nossa casa nessa época. Enfim , vale um capítulo à parte.

E no cotidiano, Vinicius , construindo , ensinando e calculando .
Mas seu maior sonho , mesmo dizendo desde pequena que era o de ser mãe , foi de fundar também uma Escola de Arquitetura em Alagoas e que fosse reconhecida no Brasil. O período era o militar onde Geisel era o nosso Presidente.

Sua vontade foi tão grande que arregaçou as mangas e partiu obstinada por esse propósito. De porta em porta, agaranhando assinaturas , viajando pelo Btasil e pelo mundo , foi recrutando profissionais que ocupassem as matérias exigidas pelo currículo escolar. Nessa dinâmica constante , Zélia fez de sua casa praticamente uma pensão. Profissionais de todo Brasil passaram pela 257, inclusive os estrangeiros que ela importava para palestras e afins.

Passamos um bom pedaço de nossas vidas , eu e meus irmãos , compartilhando e vivenciando cabeças diferentes e um vasto universo adentrando nossa casa hospitaleira. Grandes experiências, grandes trocas , grandes aprendizados.

E os relatórios chegavam no birô do Ministro da Educação. E eram muitos. Muitos . Uma infinidade de apelos, incluindo a ida de Zélia para Boston pedir livros para doação ao bendito curso em formação . E Harvard ficou impressionada com sua obstinação e demandas cedendo-lhes o que pedia e podia .

Assim como Havard, Zélia foi parar na editora Gilli de New York para compor com mais diversidade a biblioteca de Arquitetura que era um dos pré requisitos mais importante para a aceitação pelo MEC em Brasília . Nessa mesma época , Zélia de Melo Maia Nobre recebe um prêmio da ONU em N York pelo seu projeto ímpar naquela época : o Manicômio Judiciaraio com o conceito inovador de liberdade, saúde e respeito pelos pacientes e que era visitado por profissionais e estudantes de todo o Brasil. Foi uma quebra de paradguimas dos anos 70 e que serviu de exemplo para o mundo.

Tambem nos anos 70 foi formada a 1a turma, e como um presente pelo seu esforço e de tantos colaboradores que abraçaram a causa , o curso de Arquitetura foi finalmente oficializado (reconhecido) pelo MEC. Uma festa ! Uma alegria presa por muitos anos de luta e sonho .

Depois das portas abertas, o curso de Arquitetura da UFAL ficou em evidência pela qualidade do ensino, o que despertou a vinda de muitos estrangeiros, incluindo principalmente os da América Latina. Muitos bolivarianos, chilenos , peruanos ,venezuelanos que, além de conseguirem seus objetivos , escolhiam Zélia como madrinha ou paraninfa de tudo, inclusive de casamentos . Todos esses de volta aos. seus países de origem , tornaram-se reconhecidos profissionais a exemplo de Jorge Zellar no Peru, que é uma ” apaixonado” pela grande mentora do curso em questão. De volta de férias ao Brasil, TODOS querem visitá-la, e lembrar das histórias de proteção e carinho dedicados a esses tão longe de suas casas e familiares.

“Dra Zélia”, também encabeçava e liderava Congressos dentro e fora do Brasil. Promovia viagens com os alunos para conhecerem de perto as principais cidades históricas e seus patrimônios mundiais ,como: Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e aqui em Alagoas. Muitas histórias que ficaram nas memórias dos 1os alunos; das 1as turmas que nas aventuras ímpares gravaram para sempre esse tempo de muita cumplicidade entre mestres e alunos!

Chegou lecionar várias matérias no curso. Entretanto, percebia que os mais fracos e que sentiam dificuldades em acompanhar os demais, levava-os para seu escritório particular, e com total desinteresse e compaixão, fazia o reforço necessário para que os mesmos equiparassem aos que estavam na frente. Era mais uma vitória !

Zélia era incansável, e com essa capacidade de liderança e persuasão , convenceu também 4 irmãos para virem estudar aqui e se formarem . José ( Seminarista/morto ) , Apolonio ( arquiteto em Recife / morto ) , Argeu ( medico / morto ) e seu único irmão vivo Walter , engenheiro .

Zélia também contribuiu muito para o Estado de Alagoas como Presidente do Serveal ( Serviço de Engenharia do Estado de Alagoas ) e como Membro de Conselho de Cultura do Estado . Nessa área, foi uma leoa em defesa do nosso patrimônio, e mesmo com seus 87 anos , ao passar por uma fachada em pé e seu vazio derrubado com função de estacionamento sofre. Sofre com esse Brasil sem partenidade e seriedade . Sofre pela cultura , pela falta de Educação melhor no ensino médio, e, mais ainda , com a quantidade de “Universidades” que são abertas todos os anos, muitas delas só visando lucros e jamais por uma formação de primeira , onde a grande maioria contratam professores sem concursos , despreparados para a grande missão. Tudo lucro e a base de muita propaganda enganosa desencadeando nos piores dos propósitos: visar o aspecto político e eleitoreiro principalmente nessa imposição de cotas injustas , sem sentido e sem meritocracia.

Seus olhos brilham quando fala dos ” meus Três filhos ” ! eu , Rosa e Manoel. Nós duas Arquitetas seguindo sua carreira e depois Designers , e Manoel, o mais novo, um brilhante engenheiro na área de Geotecnia. reconhecido internacionalmente.
Zélia Maia Nobre não é uma lenda . É um mito vivo e adorada por todos que a conheceram de perto e teve o privilégio de conviver . Por mais que se auto-batize uma Alogoana , seu espirito de nascença que ficou em Pirilampo está na sua essência. Está nas luzes de Recife , sua terra amada e idolatrada. Não falem de Alagoas. Ela vai defender com unhas e dentes . Mas mencionar Recife e Petnambuco é evocar sua Alma. Seu mais íntimo EU que deixou aos 8 anos num Engenho Pirilampo perto de uma cidadeizinha de portas e janelas , Nazaré da Mata , para explorar o mundo.

Estamos no Natal. A época mais vibrante de sua vida . Sua paixão , sua alegria… A época de compartilhar , ajudar , refletir e também sonhar . Nunca foi pessimista. Sempre teve solução pra tudo e encoarajou a todos. Com 8 netos e uma bisneta, apontando em 2016 , ela se considera completa ! Crescemos ouvindo-a ( mesmo brincando ) “Jesus nasçeu em Nazaré , e foi pro mundo. Minha mãe Adalgisa sabia do meu destino ! ”
Eu particularmente achava uma ousadia e ao mesmo tempo engraçado esses dizeres.
Falar de minha mãe , é se perder no tempo. É ter que parar para recordar TUDO que ela fez por amor , como também era corajosa de nos dizer um NÃO , ou para qualquer autoridade que queria usufruir de seu tráfego de influência e auto confiança.

Ela é única.Direta. Jamais foi oblíqua ou deixou de ser imediata em suas pendências. Seu slogan era o AGORA , viver o agora e confiar no futuro. O passado, servia como referência , não como saudosismo que emperra a vida para frente. Nunca gostou de ficar remoendo seus sofrimentos e perdas. Sua fé sempre foi mais forte.

Esse poema de Cecília Meireles reflete linha por linha , vírgula por vírgula o sentimento de uma criança que sonhou em ser GRANDE !… Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e sempre serão especiais pra mim.

Não me dêem formulas certas, porque eu não espero acertar.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração !
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente !
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma para sempre !
Você pode até me me empurrar de um penhasco que eu vou dizer ” – E daí ? Eu adoro voar!”